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COLECÇÕES MUSEOLÓGICAS

O património artístico

As descrições que nos chegaram até hoje, permitem-nos, com toda a segurança, 

traçar o percurso de muitos dos bens que actualmente podem ser apreciados no circuito da visita às dependências do palácio. De entre todos, destacam-se

- De 25 de Janeiro de 1765, o livro do inventário dos bens móveis pertencentes às casas de Mateus, do Porto, dos Moroleiros (Amarante), de Chaves e de Viana, com a particularidade de incluir as relações de todos os objectos que foram levados para o Brasil, por D. Luís António de Sousa, autografadas pelo próprio, e ainda com a identificação das peças que regressaram após 1775.

Este inventário inclui ainda as jóias e pratas pertencentes ao vínculo de Mateus, bem como o arrolamento das jóias pertencentes a D. Leonor de Portugal, com referência aos nomes das pessoas a quem foram oferecidas, e os títulos referentes ao enxoval de D. José Maria e de D. José Luís.

- De 19 de Novembro de 1801, o inventário de todos os “trastes” que se encontram nas diversas salas do palácio, com a deliciosa designação das salas de Mateus d’Além para as salas da ala norte, a poente da actual sala da biblioteca;

- De 22 de Julho de 1813, o inventário de bens e móveis existentes no Palácio, seguindo, aliás, a metodologia e estrutura do anterior, mas acrescentando o rol referente à Capela e Sacristia, bem como os cobres e estanhos que não figuravam no anterior;

- De 23 de Julho de 1821, um inventário de estrutura idêntica aos anteriores, a que se acrescentam os bens localizados na Despensa, Cozinha, Tulha, Adega, Baixo dos Criados e Casa da Azanha.

A par do estudo que se tem vindo a fazer sobre os inventários antigos, e demais documentação existente no Arquivo de Mateus, a inventariação dos bens actualmente em exposição pública, ou arrecadados nos armários e outras dependências do Palácio, completam o conjunto das informações que têm vindo a ser coligidas, sobre o património existente, e dão-nos uma visão bastante clara e precisa do gosto que foi sendo patenteado ao longo dos séculos, pelos membros desta família.

 Mobiliário de função, com forte pendor ornamental, faianças e porcelanas, vidros e cristais, constituem o grosso dos espécimes que cruzam a componente decorativa com a funcional e que, em articulação com as colecções de pintura e escultura, proporcionam um excelente conjunto de bens artísticos.

A colecção de arte sacra que a Casa patenteia, testemunho incontestável das fortes convicções e profunda religiosidade que os seus protagonistas sempre testemunharam, constitui também um sector de extrema relevância na percepção da globalidade das colecções que o palácio ostenta.

 Recorremos, de novo, a Vasco Graça Moura, para ilustrar, em brevíssimas pinceladas, a colecção de Mateus, nas suas facetas mais relevantes.

Assim, sobre a pintura, “pode dizer-se que os grandes quadros provavelmente são todos da primeira metade do século XVIII e quase todos de um gosto ainda acentuadamente ligado ao século anterior. Naturezas mortas, composições florais e cenas de putti; estações do ano de feição arcimboldiana, típica de alguma pintura do barroco italiano do século XVII, em que, para cada uma das estações, há uma figura antropomórfica composta por elementos díspares agregados que «contracena» com uma figura de mulher, (…)

Depois, e a propósito das naturezas mortas e restantes cenas com animais, ou de caça, aponta para uma “remota inspiração caravagesca, parecendo “tratar-se de obras de epígonos de uma série de mestres holandeses de meados do século XVII, restando saber se todos esses epígonos são italianos (…), mas parecendo que não: vemos romãs abertas e uvas como nos quadros de J. Davidsz de Heem e de Alexander Coosemans, um coelho branco que se aproxima de um pintado por Franz Werner Tamm, uma taça de frutos inclinada que terá os seus protótipos em Willelm Kale e Abraham von Beyern, um milhafre algo rígido que é réplica de um quadro de Jean Fyt que se encontra no Museu do Prado, outras aves inspiradas por Melchior d’Hondecoeter, um pavão, mais cenográfico e «italiano», que pode filiar-se em António Maria Vasallo.”

E o autor continua, na sua explanação sobre as naturezas mortas, onde “predominam as atmosferas escuras e as composições pesadas”, referindo ainda a importância dos retratos, sejam eles de família, ou de grandes personagens, como o Papa Bento XIV, o cardeal Sacripanti, de D. João V e sua mulher, D. José I e do Marquês de Pombal. Em todo o caso, de personagens que, directa ou indirectamente, influíram de forma incontornável e por vezes bastante decisiva na vida de alguns membros desta família de Mateus.

Quanto aos móveis, sobretudo no que aos originários dizem respeito, são referidos como “pesados armários, escrivaninhas, mesas, cadeiras, contadores, tocheiros, grandes sanefas em talha sobre as portas, camas, cómodas, cadeirinhas, [traduzindo] o mesmo gosto das épocas de D. João V e D. José, embora alguns sejam provavelmente anteriores, como os dois grandes armários «do tombo», portáteis e em madeira clara, da sala de visitas”.

 Ainda no âmbito desta sequência descritiva, Graça Moura não disfarça a sua admiração pelo extraordinário baixo-relevo, talhado em placa polida, e representando uma Descida da Cruz, obra alemã dos inícios do século XVI, “imediatamente filiável na escola de escultores de Nuremberga”, pelo virtuosismo e “impressionante precisão naturalista das posições dos intervenientes” que este autor lhe reconhece. É, de facto, uma das maiores preciosidades que a Casa ostenta, atribuída a Hans Daucher, segundo um desenho de Dürer.

 Se a este riquíssimo espólio artístico, acrescentarmos o acervo religioso que a Casa possui, entre alfaias litúrgicas, paramentaria diversa, diferentes conjuntos de relíquias, altares, livros religiosos e de culto, para além da escultura e pintura sacras, ficamos com uma noção global do importante acervo museológico de Mateus, na sua vertente artística e cultural, num total de cerca de mil peças inventariadas, constituindo tal conjunto o acervo de referência deste importante Palácio.

 “O rol de bens móveis que em 1970 integraram o património da Fundação da Casa de Mateus dá-nos uma série de indicações essenciais, identificando peças da mais variada ordem e procedência que ali continuam. Entre elas, uma quantidade apreciável de objectos dos séculos XVI a XVIII para fins religiosos: um grande altar de talha dourada do século XVII, com uma Sagrada Família de gosto ainda maneirista ou proto-barroco pintada em madeira, imagens e pinturas devotas de Cristo, do Menino Jesus, da Virgem e dos santos, agnus dei, relicários, navetas, custódias, cálices, galhetas e outras alfaias de culto em prata, paramentos ricos…

 Todos estes bens, primitivamente integrados no contexto vivencial da Casa de Mateus, mas agora em regime de exposição permanente, para fruição dos seus visitantes, formam o conjunto patrimonial e artístico relevante, e de referência, que sustenta e dá corpo à percepção histórica da própria Casa. Assim, constatamos que o Palácio de Mateus é, actualmente, um espaço museológico com características que o aproximam de uma Casa-museu, embora mantendo em muitos dos seus espaços a primitiva e original funcionalidade, o que lhe confere um estatuto verdadeiramente singular, quando comparado com outros Palácios e Casas-museu existentes no País e estrangeiro.

Neste particular, é de realçar que a visita às diversas dependências da Casa proporciona a possibilidade de se observarem conjuntos de peças expostas de forma muito próxima das suas funções e localizações primitivas, em muitos casos mantendo mesmo, ainda que esporadicamente, tais funcionalidades originais.

É o caso das obras de arte, dos objectos decorativos e os de serviço comum que actualmente se expõem na Sala de Jantar, na Sala de Estar ou Escritório, na designada Sala dos Tijolos, bem como na Sala de Visitas, também conhecida por Sala Rica. É também o que sucede em todos os quartos da ala norte do primeiro troço da edificação (a poente da Biblioteca), e que os inventários saborosamente designam por Mateus d’Além, certamente por constituir um troço primitivamente pouco utilizado, já que os quartos de dormir se situavam na mesma ala, mas a nascente da sala da Biblioteca.

 Sublinhe-se que a Biblioteca do Palácio alberga, para além de um conjunto notável de livro antigo, os documentos, provas, pranchas e demais elementos, relativas à tão famosa edição dos Lusíadas de 1807, da autoria do Morgado de Mateus, D. José Maria do Carmo de Sousa Botelho Mourão e Vasconcelos

 Os novos espaços expositivos

Para além das dependências que tradicionalmente se encontravam dedicadas à exposição permanente do acervo de referência da Casa, podemos apreciar, no piso térreo, e nos espaços designados por “Casa das Batatas” e “Antiga Adega”, um conjunto diferenciado de elementos relacionados com a figura de D. Luís António de Sousa Botelho Mourão, particularmente os que relevam a sua faceta militar, e ainda assim, a troca de correspondência, de natureza mais intimista, com sua mulher, D. Leonor Ana Luísa José de Portugal, bem como objectos de seu uso pessoal, constituindo dois núcleos deveras interessante, por colocar em relevo dois aspectos pouco conhecidos deste Morgado, no contexto da actual exposição.

Assim, esta nova sala de exposição permanente recebeu um conjunto importante de objectos que contextualizam estas duas facetas do 4º Morgado de Mateus, e sua mulher, articulando com muita felicidade a exposição de um número razoável de peças, incluindo os telizes e xairéis que se encontravam expostos no piso superior, propiciando uma melhor ligação com a área das cavalariças, situadas logo a seguir a este espaço expositivo.

 No edifício anexo ao palácio, denominado de “Nova Adega”, e que foi objecto de remodelação, conceptual e material, para passar a ser utilizado como sala de exposições temporárias de longa duração, são expostos os quatro núcleos já referidos atrás, em sistema de rotatividade, fazendo uma abordagem histórica mais pormenorizada às figuras relevantes da Casa, e respectivos momentos históricos, conforme a descrição formulada anteriormente.  

Agostinho Ribeiro - Conservador-Museólogo

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